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A História de um jantar de aniversário em tempos de pandemia

(no final tem algumas notas de esclarecimento)

Meus caros vou escrever isto em tom de desabafo, se quiserem leiam se não quiserem não leiam, se quiserem dar upvote força, se quiserem dar downvote também é ok e é só rodar o polegar e enfiá-lo no outro dia a minha cara metade avisou-me que tínhamos sido convidados para ir jantar a casa da cunhada que tinha feito anos. Fiquei logo de pé-atrás, é que eu estava a comprimir uns 10 dias de pseudo quarentena [sim o governo espanhol andava a espiar-me] depois de ter estado a em grande sacrifício em prol dos interesses do país – que é como quem diz: de féria no Algarve – para poder ir visitar os meus pais que moram para lá das serras onde quando se vai tem de se pernoitar/cohabitar e agora vinha-me esta gaja com uma festa de anos em plena pandemia…raios.

«Não te preocupes. Ela disse-me que somos só nós e os meus pais, assim a família mais próxima» – “A família mais próxima…e eu!” pensei mas guardei para mim, “…é que só pode porque que eu saiba ainda não sou da família! Fogo! Ainda por cima vou ter de arranjar uma prenda…”

Enfim lá fomos, e no dia deram-nos a morada do restaurante, «Então? Restaurante? Não era em casa?!»

«Pois é… não sei, o David [nome fictício] disse-me que é no restaurante do tio do primo dela [grau de parentesco inventado mas vendo bem as coisas é possível], mas que o restaurante vai estar por nossa conta».

Chegados aos restaurante, de aspecto familiar mas com muito boa apresentação, acenou-nos lá de dentro o David – por detrás de uma porta carregada de cartazes da DGS impressos e o do selo COVID Safe – para que entrássemos.

«Então o teu irmão está sem máscara?» perguntei à minha cara metade que olhava para mim com ar de igual surpresa.

«Oh David! Não é preciso máscara?»

«Não, não na boa mano, entra»

Ainda assim hesitamos à entrada da porta do restaurante de onde se podia ver em praticamente todas as colunas e em letras grandes e vermelhas |YOU SHALL NOT PASS!| ok, na realidade era apenas “Obrigatório o uso de máscara” mas o já adquirido hábito de cumprir essa regras ao fim deste tempo todo era como se uma barreira invisível nos impedisse de atravessar o portal…mais precisamente a porta de entrada.

«Tens a certeza? É que não me importo nada de usar máscara… já estamos habituados» perguntamos com a máscara na mão.

«Oh esquece isso! Só cá estamos nós, o ‘tio do primo’ disse que era na boa. Só se aparecer algum cliente.» “Como assim ‘cliente’? Então o restaurante não estava por nossa conta? Quer dizer que o restaurante está aberto ao público? E isso não faz de nós clientes?” «Eles estão com pouco movimento, o pessoal anda todo com medo do cóvide” continuou o David, “Pouco movimento?” mas guardei para mim as minhas dúvidas.

Subimos à sala de jantar onde uma grande mesa se destacava já posta e com umas 20 cadeiras. Foi quando percebi que a família mais próxima incluía a família “do outro lado”. Sem máscara e claramente familiarizados com o espaço (ao contrário de nós) a família da Paula [nome fictício da aniversariante] cumprimentou-nos com a habitual frase “agora não se pode dar beijinhos” e convidou-nos a sentar enquanto se dirigiam à cozinha por entre as mesas (onde dois solitários clientes assistiam a notícias chocantes de mais um lar com infectados – CMTV) para irem buscar petiscos.

Com um enorme nó na garganta sorri e cumprimentei toda a gente, e enquanto se davam as apresentações eu só pensava que queria virar as costas e sair dali rapidamente. Contudo os laços familiares amarravam-me ao chão.

Com 15 adultos à mesa (onde ocupamos estrategicamente o cantinho mais afastado de toda a gente) e uma dúzia de crianças particularmente mal comportadas (ok eram só 5, mas apreciam muitas mais) lá chegaram os aperitivos, daqueles bons à tuga de lamber os dedos depois de lhes pegar e partilhar: camarões, queijos, pica pau, entre outras coisas que nos dão prazer de existir neste mundo circulavam na mesa num “queres? temos aqui mais! eu já comi a minha dose e a Joana (fictício) não gosta do que é bom” e enquanto isso eu gritava para dentro e tentava acompanhar que aperitivos ainda eram relativamente seguros e quais já tinham sido alvo de alguma das crianças que, de tempos, lá pegavam em comida, cheirava e voltava a meter no prato completamente absortos dos pouco convincentes ralhetes dos pais “Já te disse para não mexeres naquilo que não vais comer!” isto x100 e x5 e é só fazer as contas.

1 a 1 os dois solitário clientes abandonaram discretamente a sala enquanto a nossa refeição se desenrolou. Um dos nosso convivas (pelos vistos funcionário do sítio) era uma das duas únicas pessoas que usava máscara e foi receber os pagamentos. A outra pessoa era o dono do elegante restaurante, um senhor forte (ok, gordo) e pachorrento com máscara a fazer da babete enquanto se queixava dos ossos e que vinha aí chuva (acertou claro!)

O jantar estava óptimo! Boa comida, bom vinho tudo bem confeccionado. Até conhecemos a cozinheira, uma senhora com muitos anos na casa, que veio da cozinha (sem máscara) para nos cumprimentar e conversar um pouco com os convivas enquanto, por cima de mim, se apoiava nas costas de minha cadeira.

A conversa lá se orientou para o tema do Covi-19, e afinal aquela gente até é temerosa da coisa, pois tinham “muito medo”, «sabe-se lá as pessoas que andam por aí!», «Andam aí espanhóis por todo o lado e uma pessoa tem receio, ainda no outro dia tivemos aqui umas francesas, vieram cá duas vezes, felizmente já se foram embora!», «A culpa é do governo e do PR! [Claro…] que só dão maus exemplos, andam a pedir para as pessoas irem à praia e irem de férias e depois tá tudo infectado», «Há pessoas que também não têm cuidado nenhum, ainda no outro dia…»

Aos poucos os olhares viraram-se para mim, as pessoas mais próximas sabem que tenho formação científica, opiniões sólidas e minimamente informadas sobre o tema pelo que eu (depois de ter esvaziado uma boa parte da garrafa de tinto que descansava ao meu lado) já não aguentando ouvir mais nada levantei-me e explodi apontando o dedo para aquela gente e denunciei aquela hipocrisia, o incumprimento de regras e toda a estupidez e falta de critério à lusitana pois já era mais que sabido que as mais recentes infecções eram provocadas por eventos exactamente como aquele! Aliás como é que ainda tinham o descaramento de se queixar de falta de clientes perante tão pavoroso incumprimento das mais elementares regras!

Ou pelo menos foi isso que fantasiei por breves segundos e assim, depois de mais um golo no copo de vinho para ganhar tempo, lá respondi quebrando o momentâneo silêncio que se havia instalado: «Pois… É complicado…»

Já as velas lá se apagaram, como deve de ser nos dias de hoje, com um swipe da mão.

–//–

Algumas notas:

  • Esta narrativa é longa mas tentei que fosse divertida de ler. Na realidade eu escrevi este texto em tom de desabafo no final de Agosto mas não cheguei a publicar, com o aumento de casos lembrei-me dele e decidi partilhar.
  • Entenda-se que na altura algumas das regras relativas aos ajuntamentos ainda não se aplicavam a todo o país.
  • Os familiares da “Paula” foram super simpáticos e, não fosse a COVID-19 teria sido um serão excelente.
  • Felizmente, até à data nenhuma das pessoas que estiveram nesse jantar desenvolveu a infecção (que se saiba).

submitted by /u/ZaGaGa
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