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A nossa cultura de humildade forçada

Por esta altura já todos devemos concordar que em Portugal existe uma cultura de conformismo tóxica. Mas gostaria de trazer para debate um aspecto que talvez seja ainda contencioso: a condenação da arrogância. Quando é que ser arrogante é mau? Será que nunca é justificável?

Parece que é má educação, e mesmo ofensivo, admitir que se é bom em algo. Em se mostrar orgulhoso do seu trabalho, em ter vontade de partilhar as suas conquistas com as outras pessoas. Quando alguém pergunta “és bom nisto?”, a resposta educada deve ser “eh, safo-me…”, mesmo que saibamos perfeitamente que a coisa em questão é 100% a nossa praia. Porque não dizer logo “Claro! Dificilmente encontrarás alguém melhor!”. Isto soa mal… Mas porquê? Porque não é suposto falarmos nas nossas conquistas aos outros, em nos mostrarmos alegres com o nosso progresso. Porque isso pode ofendê-los. Mas não será a parte ofendida que está errada?

Para que fique claro: uma pessoa por ser um gabarolas, não implica que desvalorize o trabalho e o esforço dos outros. Mesmo que o gabarolas não seja lá grande espingarda na realidade. Mas se de facto for bom, em vez de condenarmos, não deveríamos admirar e encorajar? É verdade que um ego inflamado pode resultar na desgraça do gabarolas, mas se ele não tratar mal os outros que não são tão bons quanto ele, o que é que isso nos importa?

Porque é que pessoas se ofendem quando Cristiano Ronaldo diz que é o melhor do mundo, e que vai conquistar tudo? Não trabalhou para lá estar? Alguma vez desvalorizou o esforço dos outros. Não é humilde na derrota? Então deixai-o ser arrogante. É de admirar, não de condenar!

Porque é que quando aparece uma pessoa super saudável e um físico invejável, os comentários do tipo “passa a vida no ginásio” e “é só músculo, e 0 cérebro”, não tardam a aparecer. Do mesmo modo para aqueles que “só vêm livros à frente e não aproveitam a vida”. Lembro-me de um professor que me contou que o pai lhe batia com o cinto, enquanto dizia “ai tens a mania que queres ser doutor?!”. O povo por vezes também diz por aí que “fulano só porque andou na faculdade tem a mania que sabe mais que eu, que andei na vida”. Quando o aluno entusiasmado participa activamente numa aula “quer mostrar que sabe”.

Não é isto uma vontade corrupta de rebaixar os outros para que eles não nos façam sentir mal com nós mesmos, para que não tenhamos que fazer aquele difícil e odioso exercício de introspecção: “o que é que estou a fazer com a minha vida?”. A inquisição da arrogância não é em si tão errada como o narcisismo egocêntrico? Não deveríamos rever a forma como lidamos com a modéstia e o orgulho na nossa sociedade?

submitted by /u/Buddy_Appropriate
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