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Em busca de uma Nau Portuguesa em 2021

Vou contar algo que descobri e me fascinou agora no final de 2020, que não tem nada a haver com covids, eleições, Jorge Jesus etc.

Eu trabalho numa empresa portuguesa centenária no Porto que tem uma área de turismo, pois bem, nesta altura, não há turismo. Então para assegurar empregos a equipa tem se dividido entre outros afazeres e eu tenho feito maioritariamente… arquivo, em que os documentos mais antigos remontam aos anos 70… 1870. Bah eu sei, aquela coisa chata de andar a mexer em resmas sem fim de papelada antiga, cheiro a mofo, que nunca mais vai ver a luz do dia. Seria de esperar que fosse das piores tarefas que me pudesse calhar, mas na realidade, eu adoro. Pois entre as montanhas de recibos, notas de encomendas e correspondência, muita desta ainda escrita à mão com uma habilidade que poucos hoje a tem, há sempre momentos onde se descobre pequenas histórias sobre a empresa, cidade e até mesmo do país. E foi ao revirar as capas de 1956 que encontrei algo que me chamou à atenção, uma brochura de tonalidade sépia com, o que eu diria ser um galeão na capa, intitulada de: A NAU S.VICENTE. [IMAGENS], acompanhada também de vários títulos de acções [IMAGEM] da Sociedade da Nau São Vicente S.A.R.L..

Nesta brochura estava descrito um projecto de construção de uma réplica completamente funcional de uma nau do sec. XVII em todo o seu esplendor e deslumbre, tanto no interior como no exterior, serviria como um salão de exposições flutuante que com as suas varias divisões revestidas da melhor talha e sedas levaria exemplares dos mais variados produtos nacionais, desde o vinho, azeite, madeira, ouro e jóias aos 4 cantos do mundo da forma mais luxuosa possível.

[Reportagem da RTP sobre a da Nau de São Vicente em 1963]

Este projeto nasceu da mente de J. Leitão de Barros, enorme personagem do mundo artístico português na época e foi apoiada pelos mais diversos homens do mundo comercial e industrial português, como Sam Levi (Exportador de produtos nacionais), Victor Guedes Júnior (Fundador do Azeite Gallo), Amadeu Gaudêncio (Construtor Civil) entre muitos outros, que em 1955 criaram a Sociedade da Nau São Vicente S.A.R.L. com um capital social de 6 mil contos (quase 3 milhões de euros fazendo a actualização a 2019), tendo sede na Rua Castilho, 57 -3º em Lisboa.

A tarefa da construção ficou a cargo dos estaleiros Mónica, de Manuel Maria Bolais Mónica, mestre construtor de embarcações de madeira na Gafanha da Nazaré. Não foi uma tarefa fácil nem rápida devido a vários problemas de financiamento, mas em 1960, apenas com a estrutura essencial para navegação se sem nenhuma decoração ainda colocada, foi lançada à água, sendo que seria agora que todo o espolio arrecadado durante a construção da nau seria adicionado à embarcação.

Infelizmente, isso nunca chegou a acontecer…

A embarcação permaneceu os quatro anos seguintes nos estaleiros até que em 1964 foi levada a reboque para Lisboa onde ficou atracada no Mar da Palha e abandonada pelo Estado Português (este mais ocupado com a guerra colonial na altura), no estuário do Rio Tejo. Li relatos que chegou a ser usada para o transporte de sal no Seixal, mas a falta de manutenção inevitavelmente veio a fazer com que a madeira apodrece-se ao ponto de já não conter mais a água, e por fim afundou-se. Os seus destroços ainda existem nos dias de hoje, e estão sinalizados. Encontrei um estudo de impacte ambiental do Terminal do Barreiro [Link] que menciona as coordenadas dos mesmos:

-09º 16′ 20,012” 38º 41′ 11,136” Coordenadas geográficas Datum 73

(Nas minhas tentativas de usar estas coordenadas no google maps, leva-me sempre a um ponto largo de Caxias, mas creio que será uma localização errada pois fica fora do Mar da Pallha, acredito que devo estar a converter mal as coordenadas, se alguém conseguir encontrar o local exacto agradecia)

Quanto ao destino de todo o espolio que deverá ter ficado em terra, de nada sei, apenas que era merecedor de estar em exposição num museu ao acesso de todos.

Links de blogs com informação sobre a Nau de S. Vicente:

https://restosdecoleccao.blogspot.com/2018/04/nau-sao-vicente.html

https://marintimidades.blogspot.com/2012/10/bota-abaixo-da-nau-s-vicente.html

https://naviosavista.blogspot.com/2011/05/batelao-nazare-ex-nau-portugal.html

submitted by /u/Osodraca
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