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[Longo] Crónicas de uma pandemia Volume 2

Depois da v/ boa reação ao volume 1 (que não se chamou assim) tentei escrever uma nova “crónica” fiz um primeiro rascunho quando chegamos às 1000 infecções diárias mas não gostei. Fiz um segundo quando estalou a polémica da App StayAway mas estava fatela. Contudo hoje inspirei-me, mas não vou contar uma história divertida na primeira pessoa. Pelo contrário… vou-vos contar a história de…

…Carolina.

Com 18 anos acabados de fazer, cheia de sonhos, cheia de dúvidas, Carolina só tem uma angustiante certeza: a pandemia está a tirar-lhe aquele que podia ter sido o melhor ano da sua vida.

Tudo começou com uma discussão com o pai, a viagem de finalistas estava fora de questão por causa da porcaria de um vírus qualquer. Só lhe apetecia gritar tal era injustiça que lhe tirava assim, de repente, a viagem que lhe preenchera o imaginário com festas e praia e …ok, muito álcool e galderice à mistura, porque viagem de finalistas só há uma…havia… «NUNCA MAIS TE PERDOO!!» gritou Carolina antes de bater com a porta do quarto. O eco destas memórias surgem como um calafrio distante, “Já passou tanto tempo… que infantil que fui…”. Há memória surge agora a voz do pai a discutir com o director da secundária, «Como assim não têm instruções do ministério! Não percebem que é para ir tudo para casa! Não vê o que está a acontecer à sua volta!!» Carolina nunca tinha visto o pai tão enervado com outra pessoa, muito menos na sua escola. Era quarta-feira, tarde livre e estava um belo dia de Sol, Carolina tinha planeado ir à praia, mas o que não tinha planeado era que o pai entrasse pela secundária a exigir falar com o director. Um grupo de pais aguardava junto ao portão fora dos carros e com ar preocupado, aquilo não era normal.

Carolina não foi à praia. O pai, o seu herói, foi a primeira pessoa do universo de Carolina que levou a pandemia a sério. Depois de vencer há 3 anos vencer um problema de saúde complicado que lhe tirou de vez o vício de fumar e parte de um pulmão, o pai de Carolina, estava, talvez, mais consciente dos riscos de uma doença infecciosa como a CoViD-19.

O confinamento não custou nada, até foi bom. De início havia o pânico inicial agravado pela confusão e teorias parvas partilhadas pelos dos colegas no whatsapp, mas o bom humor do pai de Carolina desmontava qualquer teoria parva. O tema favorito era o açambarcamento de papel higiénico «Esta gente é mesmo tola, se há coisa que não falta no país é papel para limpar o rabo! Não te preocupes que se faltar o papel aqui em casa tens sempre o bidé! O Bidé! Toda a gente tem um! Não percebo o desespero!». «Oh pai…» respondia Carolina enquanto revirava os olhos como resposta a mais uma tirada tonta que envolvia ‘bidé’ e ‘rabo’ na mesma frase.

As aulas online foram bem vindas, sem os stresses, rotinas e rituais que uma jovem mulher tem de suportar todos os dias para chegar à escola com um look minimamente aceitável (aos olhos da própria entendida claro) sobrou muito mais tempo para Carolina se dedicar aos estudos, sem saídas com amigas, festas ou aniversários não havia muito mais para fazer que não fosse focar-se no exames de acesso à Universidade. “O tempo passou tão depressa…”

A experiência de ser caloira na Universidade não foi bem o que lhe tinham prometido, sem recepções do caloiro, sem festas, sem bares, sem álcool. Só máscaras…. nem dá para conhecer as pessoas. Não há festa sem culpa, não há copo de cerveja na rua que não seja errado. Os olhares de reprovação de quem passa sempre que Carolina e os colegas se juntam para conviver trazem consigo uma sensação de estar a viver na clandestinidade.

Carolina fez 18 anos. Porra não se faz 18 anos todos os dias! As celebrações foram planeadas com antecedência: Comprar bebidas (o mais importante!) passá-las para garrafas de água mais discretas e arrumadas nas malas das ‘gajas’, jantar sushi, seguido de um convivio ‘completamente ilegal’ no jardim perto do campus. Mas não deu, demasiada gente no jardim, fogo! «E se fossemos para minha casa? É na boa não tá lá ninguém. A minha colega casa deve estar na casa do namorado é mesmo na boa» Noite salva, música a bombar, bebidas a acabar… «Já bebemos tudo?» «Eu disse que devíamos ter trazido mais!» «Eu lá sabia que vínhamos para tua casa, querias andar com mais uma garrafa atrás? Não tens aqui nada?» « e se fossemos ao bar do Gunas?» «Tá aberto?» «Tá claro, o pessoal tá a postar que vai haver festa e tudo» «Tás a gozar?». Não estava. O bar estava ao rubro, não fosse as máscaras no pescoço, no pulso e …. no chão… nem se percebia que havia uma pandemia. «Pessoal temos de fechar!» «Ohhhhhhh» «Quem quiser ficar tem de ir lá para dentro». ‘Lá dentro’ era na cave do espaço, um espaço discreto, oculto de olhares indiscretos, claramente era um espaço de arrumos convertido em discoteca improvisada. DJ a tocar, pessoal a dançar, «sai mais uma rodada de shots, pago eu» mas a Carolina já não se lembra de quem pagou (se é que alguém efectivamente pagou) só se lembra de dançar, de curtir, de gritar, dos olhares sedentos dos rapazes, da sensação de corpos quentes e húmidos a moverem-se ao ritmo da música até chocar com uma rapariga e lhe entornar a bebida.

A Joana era uma jovem de 30 e pouco, um mulherão na realidade, inspirava confiança, transpirava liberdade. Carolina invejou-a naquele instante e bastou uma troca de olhares (não, não vai haver girl on girl action) para as duas raparigas se odiarem (mulheres…).

Um rapaz tentou uma tímida aproximação aproximação, mas a Carolina ignorou, outro foi mais atrevido, mas a Carolina despachou-o de volta para o grupinho de onde tinha saído, atenção era bem vinda, mas Carolina só queria viver o momento.

O dia seguinte não foi fácil, o problema não foi tanto a ressaca mas a sensação de culpa. Tantos meses de cuidados e ontem foi a desgraça. Os pais de Carolina nunca souberam de até onde foi a noite de Carolina, a versão que contou à mãe foi bem resumida. Teve comida, teve bebida, teve dança, e acabou tudo em casa da colega «e os vizinhos não se queixaram?» «Não mãe… aquilo é tudo pessoal da universidade…». Viver em casa dos pais é tramado, mas tinha de ser.

Na semana seguinte seguinte foi a vez do aniversário da Avó da Carolina e o leitor por esta altura já deve estar desconfiado: “morre a velha não é? Despacha lá isso!”. Foi uma festa discreta, um lanche na realidade. O pai, os dois irmãos do pai e a prima Clara, 5 pessoas tal como mandam as regras. Mas não foram as regras que fizeram Carolina ficar em casa e cantar os parabéns à Avó por telefone, nem o relatório supostamente urgente que Carolina usou como desculpa para ficar em casa. Carolina ficou em casa porque queria completar os dias de uma quarentena secreta antes de voltar a visitar a Avó de 90 anos.

O caixão desce para a terra, e Carolina não se esforça por conter as lágrimas, o ranho, a dor… O funeral é discreto, ninguém sabe bem quais são as regras, algumas pessoas próximas não vieram, outras não puderam vir. Aconteceu tudo tão depressa, ainda na semana passada o pai descrevia alegremente as confusões da avó «Ela tá fina! Ás vezes fica meia perdida mas ainda tá bem fina para a idade que tem!». A Avó não veio ao funeral, está de quarentena como o tio, não pode fazer o seu luto, se calhar ainda nem lhe disseram com receio que morra de desgosto.

“Não é justo, não é justo… nem me despedi”. Quando a meio da noite o pai foi levado pelos por uns vultos todos cobertos em plástico branco, ele estava bem, tinha tosse, mas o pai tinha sempre tosse, o problema era a falta de ar. Carolina não voltou a ver o pai, não o pode acompanhar, não presenciou os últimos momentos de consciência do pai fixos na ideia de falta de ar. Não viu a medicação que foi aplicada para o estabilizar, e quando o corpo cedeu à doença não viu a fria troca de olhar entre médico e enfermeira que nesse momento, sem dizer palavra, decidiram não o reanimar. Os recursos são escassos estavam a chegar doentes mais jovens e com mais hipóteses de sobreviver.

O teste negativo pouca consolação trouxe a Carolina, provavelmente nunca esteve doente foi a prima Clara, foi a Clara… Os inquéritos das autoridades de saúde foram pouco esclarecedores, a Clara estava positiva e assintomática terá contaminado o pai e o tio (o pai da Carolina) na festa da avó dado que os dois tiveram os primeiros sintomas no mesmo dia. A prima Clara vive sozinha e não esteve com ninguém excepto no trabalho onde é estagiária, foi ao supermercado e pouco mais…

O primeiro teste da Joana foi inconclusivo, pago pela empresa que queria arrumar o assunto de forma discreta. O segundo foi negativo e libertou Joana de um confinamento que não tencionava cumprir depois de saber que a única colega com quem partilhava a sala no escritório estava infectada com a treta do vírus. “Raios da miúda estragou-me a semana, tanta mania com a pandemia! Foi logo a primeira” pensou a Joana enquanto se arranjava para sair, para viver, “hoje volto ao Gunas”.

Nota do OP:

Não me batam se só perceberam agora que esta história foi ficcionada embora com base em ‘factos reais’. de facto tem por base uma amálgama de testemunhos uns na primeira pessoa outros que li por aí. Se existir alguma incongruência sobre factos médicos, mea culpa, tentei.

É importante sublinhar que um teste negativo por si só, sem um critério clínico, não significa nada. Mas ajudava-me na narrativa.

O “bar do Gunas” se existir é outro bar, pois este foi inventado por mim. A Carolina é ficcionada, não existe, e o pai não morreu porque também não existe, nem existem os tios, nem a avó nem a prima Clara. Só existe a Joana, possivelmente nem se chama assim, e até é possível que nem seja uma rapariga, mas é a única personagem que existe na minha história. A Joana está bem, nem sabe que já esteve doente, pouco mais sei sobre ela apenas sei que neste momento está entretida a ler um longo post, uma crónica qualquer, que alguém colocou no no Reddit.

submitted by /u/ZaGaGa
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