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Relatos de um interno de Saúde Pública – vamos por os pontos nos i’s

Eu sou interno de Saúde Pública. Oversimplifying, estou a fazer a especialidade para me tornar delegado de saúde, entre outras funções. Sem entrar em demasiado detalhe, e apesar de haver por aí alguns que não são bons profissionais (como em qualquer área), queria dar-vos um pequeno resumo do que se tem passado e como a nossa classe em particular tem vivido esta pandemia desde que começou:

  1. Temos formação em economia e gestão da saúde, ciências da comunicação, políticas e direito de saúde entre outras áreas além da formação base de médicos;

  2. Estas competências permitem-nos ter uma capacidade de planeamento, estratégia e previsão de fenómenos relacionados com a saúde e com base nisso desenvolvemos “planos de saúde” (locais/municipais, regionais ou nacionais, conforme o âmbito pretendido) com as autoridades e instituições de governação, de forma a melhor orientar os recursos (humanos, monetários e até temporais) em prol da saúde da população. Fazemos isto diariamente além de muitas outras tarefas como a vigilância de doenças de notificação obrigatória, saúde escolar, segurança e qualidade de lares e similares, etc.

enter COVID-19

  1. É constituído o “Conselho Nacional de Saúde Pública” em fevereiro para estudar a situação e planear uma resposta. Salvo-erro, este conselho, constituído por 12 pessoas, tinha apenas 2 profissionais com a especialidade médica de saúde pública. O resto? Economistas, políticos, juristas.

  2. Podíamos, com a formação que temos, ter redistribuído recursos para que não fosse necessário cancelar consultas e cirurgias. Podíamos ter criado redes de comunicado de risco à população e orientado o governo, que nem um médico tem (quanto mais de saúde pública) a perceber o impacto potencial da pandemia e a identificar fragilidades a colmatar e medidas baseadas em evidência científica produzida nos países que foram atingidos antes do nosso de forma crítica, gradual e transparente. Podíamos até ter desenvolvido estratégias específicas de acordo com a realidade de cada município, distrito ou região. Mas nunca fomos consultados.

o que temos nós feito, na realidade?

  1. Desde março, todos os dias, sem descanso (fins de semana ou feriados), temos dezenas de casos, positivos ou suspeitos, a chegar às nossas unidades. Cada caso tem outras potenciais dezenas de contactos. Nós temos de, diariamente, acompanhar estas pessoas por telefone e tentar marcar testes, passar declarações, acompanhar a evolução clínica dos mesmos. O “planeamento” levado a cabo pelo Governo e pelo “Conselho Nacional de Saúde Pública” foi um tremendo fracasso e nós sentimos isso na pele diariamente. Todos os dias caem novas orientações que anulam as do dia anterior e perdemos uma valiosa parte do nosso tempo a tentar compreender o que pretendem eles com isso é onde tinham a cabeça quando se lembraram de o decidir.

  2. Em termos de recursos humanos, A minha unidade, por exemplo, tem 5 especialistas, 2 que se reformam para o ano, e 2 internos (que ainda estão em período de formação) para uma região com cerca de 200000 habitantes. Antes disto já era insuficiente e com a pandemia, só piorou, entre burnouts, doença física e mental pelo meio. Depois, já tínhamos problemas informáticos por incapacidade dos servidores em lidar com o nível e dimensão dos dados que temos de trabalhar. Com o COVID-19, literalmente chegam a passar-se dias em que simplesmente não conseguimos abrir ou browser ou as aplicações que necessitamos para fazer o nosso trabalho. As linhas telefónicas do centro de saúde vão abaixo constantemente e há 1 telemóvel de serviço para os 7 médicos que aqui trabalham (1 no total!). Para terem noção, entre março e abril chegou a haver dias em que só tinha conhecimento dos casos no nosso ACES quando colegas do hospital me ligavam a avisar que não estavam a conseguir introduzir os dados no sistema informático;

TLDR: tenho visto e ouvido muitas críticas aos médicos de saúde pública. Percebo a frustração da população mas acreditem, é partilhada por nós. Segui esta especialidade por vontade de compreender melhor o sistema de saúde e tentar contribuir para melhorar o acesso da população a uma saúde com segurança e qualidade. Com que me deparei? Um sistema viciado e conformado, repleto de interesses políticos e económicos com lideres completamente desligados da realidade no terreno, que regurgitam burocracia e ordens do seu pedestal sem compreender o verdadeiro impacto que a sua ignorância e interesses enviesados provocam nos profissionais que lutam todos os dias para fazer o seu melhor e na população que era suposto servirem.

Sorry for the long post 🥔

submitted by /u/room134
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