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Texto Luís Osório- “Que raça de gente, os artistas”

POSTAL DO DIA

Que raça de gente, os artistas

1.

A cultura existe em Portugal como entretenimento. Não como conhecimento ou questionamento e ainda menos como instrumento para a construção de um pensamento, uma ética ou uma moral. Não. A cultura para a generalidade das pessoas é bater palmas e sair mais divertido do que quando se entrou. Ir ao teatro (desde que seja leve), ver os filmes (que não sejam pesados), ler os livros que se leem como se fossem uma pastilha elástica (pequeninos e que contem uma história que a gente entenda).

2. A cultura para a generalidade das pessoas é um espaço ocupado por gente que não trabalha. A generalidade das famílias não projeta que os seus filhos sejam atores, escritores, pintores, realizadores ou bailarinos. Isso é coisa para quem não deseja fazer nada da vida, para inúteis, improdutivos, maus alunos ou espíritos demasiado inquietos.

3. A generalidade dos políticos não suporta os artistas. A forma como vivem. O que dizem. O que escrevem. As suas reivindicações – o país com tantos problemas e aqueles gajos com os seus subsídios, nós com tantas coisas para resolver e aqueles tipos que nada fazem a querer dinheiro para a merda dos sonhos, nós com o serviço nacional de saúde nas lonas e os professores e aqueles freaks (mais os seus espetáculos, cenários, roupas esquisitas, álcool e poesia) a quererem mais por se acharem merecedores.

4. Este não é um tempo para a cultura. Não é um tempo para quem não produz o que é tangível. Não é tempo para o que precisa de tempo. Não é tempo para o que requer tempo Não é um tempo que seja fácil para os que acreditam que os livros, os filmes, os quadros, o teatro, as esculturas, a filosofia, a metafísica, a teologia, as instalações ou a música nos oferecem o que nos permite ser gente, a possibilidade de ser maiores. De ser resposta. De ser. Simplesmente, de ser.

5. Eles não sabem mesmo o que dizem

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