Categories
Uncategorized

U wot m8? Estórias de um gajo que se mudou para o UK [Capítulo 0: Introdução]

Post anterior: https://www.reddit.com/r/portugal/comments/itrx1l/estou_a_pensar_escrever_uma_s%C3%A9rie_de_textos_sobre/

Olá amigos.

Perguntei-vos se estariam interessados numa série de posts acerca da minha experiência enquanto emigrante no UK. A resposta pareceu positiva, por isso vou começar a publicar o que vou escrevendo. Este primeiro post serve de introdução para ditar o mote dos restantes; aproveito para deixar aqui uma série de notas que depois escuso de repetir nos seguintes.

Que merda é esta?

Há-de ser um relato mais ou menos organizado da minha vivência como emigrante, escritos de forma predominantemente episódica. Cada capítulo pretenderá abordar um tema diferente que, na minha opinião, poderá afectar outras pessoas na mesma situação que eu. Basicamente, cada capítulo relatará grosso modo uma situação que me fez pensar “puta que pariu, porque é que não me disseram isto antes?”

Mais concretamente, quero:

  • Fomentar a discussão: acima de tudo, já que publico os textos, quero ter a maior quantidade de feedback possível. Digam-me quando estou enganado, digam-me quando acham que sou uma merda, chamem-me snob. Façam perguntas nos comments sobre as vossas vidas. Façam perguntas nos comments sobre as vidas de outros. Tudo está aberto à discussão.
  • Desmistificar a emigração: eu sinto que há uma grande nuvem preta sobre a emigração, muita apoquentação e medo que por vezes não se justificam. Eu não tenho interesse em promover a emigração, mas tenho gosto em clarificar alguns pontos para quem quiser ou precisar. Quero ter uma abordagem aberta, informal e desinibida. Parece-me ser essa a forma de melhor chegar a quem possa precisar, e é o tom que mais gosto de adoptar na escrita criativa.
  • Trazer à luz alguns problemas menos comuns ou menos falados: vou começar pelos temas mais comuns, mas passei por algumas situações interessantes que talvez sejam do interesse de outros.
  • Escrever um bocadinho: eu gosto de escrever, e este pareceu-me um meio interessante com potencial público e utilidade. Se vir que a recepção é má, ou que me chateia mais que o gozo que dá, volto para debaixo da pedra e exercito a escrita criativa noutro meio qualquer.
  • Registar a experiência: estes capítulos seriam escritos independentemente de os publicar. Sinto que passei por experiências interessantes acerca das quais quero gerar uma memória mais perene.

Antes de começarmos, algumas coisas importantes de referir:

  • Estes posts são a minha opinião. Não pretendem ser um guia, nem pretendem ser conselhos. O intenção é a melhor, mas se se meterem em merda não me venham pedir explicações.
  • A minha experiencia é altamente pessoal. Eu vim para o UK em certas condições (mais sobre isso mais tarde), num certo momento, com uma certa quantidade de recursos e munido de uma certa personalidade. Outras pessoas vão ter outras experiências. Por favor avisem quando sentirem que estou a sobre-generalizar, que é uma falha que me reconheço.
  • Caso note o contrário, não pretendo ofender ninguém, nem glorificar a minha experiência. Eu tenho bastante orgulho no meu percurso até agora, mas o objectivo destes textos não é exaltar a minha experiência. Pretendem ser uma forma de começar diálogos, de relatar a experiência de uma forma mais ou menos objectiva, e de talvez até ajudar alguém que esteja a considerar emigrar.
  • Não pretendo associar estes textos com a minha identidade. Eu sou bastante protector da minha identidade, por várias razões. Alguns dos detalhes vão ser suficientemente vagos para eu achar que estou seguro de me fazerem doxxing. Não que tenha nada a esconder, mas prefiro assim; talvez mude de ideias mais à frente.
  • Para que é tanto palavrão, caralho? Eu sei escrever sem calão, e tenho muito texto formal publicado em muitas editoras por esse mundo fora (trabalhar na ciência tem destas coisas), com variáveis graus de sucesso. Eu sinto que estes textos podem beneficiar de uma certa informalidade, portanto não os mostrem a criancinhas que não saibam palavrões. Ah, e não uso o OA 1990, e não vou debater muito o assunto.
  • Os posts vão ser todos gigantes pa caralho? Não é essa a ideia. Cada post será um “capítulo”, que conto que tenha umas 3000 ou 4000 palavras, algo semelhante ao que teria um capítulo de um livro. O Reddit limita os self posts a 40000 chars, mas conto ficar longe disso. Este primeiro é um bocadinho mais lacto, mas os outros vão ser focados ainda que não necessariamente mais curtos.
  • Vais escrever tudo em bullet points? Eu gosto de bullet points.

O que é que vem a seguir?

Este post é uma introdução muito básica ao “projecto” que estou a começar. Neste momento tenho esta introdução escrita, e mais alguns capítulos pensados e alinhavados. Para já, tenho alguns temas principais acerca dos quais gostaria de (ou comecei a) escrever:

  • O “primeiro embate”. Seria um post só sobre os “problemas iniciais” que o novo emigrante pode ter ao chegar a outro país; a viagem, a mudança, as despedidas, encontrar casa, começar a trabalhar, e por aí fora.
  • Cultura e dia-a-dia. Os Ingleses são um povo muito porreiro, mas lá porque domino o inglês não quer dizer que domine a convivência. Talvez inclua os meus pensamentos sobre o racismo.
  • Habitação. Argumentavelmente (e daí talvez não) um dos maiores problemas deste país.
  • Finanças. O que fazer quando, de repente, se tem dinheiro para poupar; seguido de uma realização de que continuo a ser pobre, e que tenho que pagar tudo a pronto por ser emigra.
  • Comprar carro e conduzir no UK. Não só é tudo ao contrário, como algumas coisas não são ao contrário, e nem sempre são as coisas que esperamos. E é tudo muita caro.
  • O covid à distância. Os transtornos que a pandemia causa no caso específico de alguém que está deslocado.

Não os vou escrever por ordem, garantidamente. Sintam-se à vontade para sugerir tópicos, já acrescentei um ou outro de comments no outro post. Vou tentar manter os posts ligados uns com os outros com um índice ali no topo.

Quem és tu, e porque é que hei-de querer saber disto?

Por razão nenhuma. Lê este; se gostares, provavelmente vais gostar do resto. Se achaste que é só um gajo a dissertar sobre temas da vida, então acertaste na mouche. Se não gostas de gajos a dissertar sobre temas da vida, talvez não gostes disto.

Eu sou um gajo qualquer, suspeito que parecido com muitos vós: casa dos 30, carreira em tecnologia, mania que é esperto, emigrado recente. Acho que a minha experiência enquanto emigrante é deprimentemente mediana, e é aí que vejo o valor deste esforço. Entre decidir que queria vir e o dia de hoje, passei por uma série de situações que suspeito que muitos outros também atravessaram, e para as quais gostaria de ter tido aviso. Alguns exemplos de que me lembro de repente:

  • Sabiam que no UK é possível ter-se que pagar 6 ou até 12 meses de renda em adiantado se não se tiver referências (spoiler alert: este tidbit custou-me 5000+ libras)?
  • Sabiam que é muito difícil obter qualquer tipo de crédito, particularmente ao consumo, enquanto não se viver no país há mais de 3 anos?
  • Sabiam que quando entramos para uma casa nova, ela já vem com água, electricidade e gás ligados e que recai sobre o arrendatário comunicar as leituras quando entra?
  • Sabiam que o seguro de um carro para alguém com carta há pouco tempo pode custar dezenas de milhares (sim, cinco dígitos) de libras por ano?
  • Sabiam que é preciso uma puta de uma licença para ver televisão?

Eu também não sabia de nenhuma destas (e outras coisas), e às vezes saiu-me do bolso não saber disso.

A minha experiência provavelmente foge da média em alguns aspectos cruciais: não vivo nem trabalho numa cidade, vim já com um contrato de trabalho permanente assinado, e por aí fora. Escrever sobre alguns desses aspectos talvez passe a ser mais um exercício de memória pessoal que outra coisa, ou talvez as minhas peripécias pessoas ressoem com alguém, logo vemos.

Motivação

Um bocadinho do que está por trás das razões que me trouxeram para aqui:

Porquê NÃO emigrar?

Quando fui entrevistado para a posição em que estou agora, o entrevistador final (depois de umas 5 entrevistas para a mesma posição) perguntou-me: “estás nessa empresa há coisa de um ano, porque é que te queres mudar?”. A minha resposta foi simples: não quero.

Em Portugal a vida tem uma leveza que não consigo encontrar em mais lado nenhum. Ganha-se pouco, é certo, e as oportunidades são muito limitadas, mas:

  • tens uma rede de apoio familiar por perto;
  • conheces “o sistema”, e.g. a política, a legislação, a tributação, os costumes, etc;
  • é fácil construir uma rotina satisfatória;
  • toda a gente fala português (com variáveis graus de sucesso);

e por aí fora. A minha vida em Portugal era de uma tranquilidade incrível. O trabalho era especializado e pouco exigente, trabalhava com amigos de longa data na minha área de formação (que adoro). A minha rotina estava extremamente solidificada, vivia numa cidade que adoro (ah Coimbra!), conseguia-me facilmente sustentar, vivia numa casa boa numa zona boa. Visto de fora, tudo estava OK. A opção fácil teria sido deixar-me ficar; tinha facilmente emprego para a vida e poucas chatices.

Ainda assim…

Porquê emigrar?

Há uma certa insatisfação que vem com o saber que chegaste ao topo muito cedo, e que o topo não é tão alto como querias. Eu sou extremamente ambicioso, não do ponto de vista materialista e egoísta, mas mais numa eterna ânsia de ser melhor no que faço. Eu tive a espectacular sorte de escolher uma profissão pela qual me apaixonei, e de ter conseguido sempre trabalhar nela estes anos todos. O meu trabalho foi aparentemente tendo qualidade, e fui indo por aí acima. Um mestrado vira doutoramento, que vira bolsas, que vira escrita de projectos, que vira posições em empresas, que vira posições séniores.

No entanto, há um tecto máximo para o que se pode fazer em Portugal na minha área: o mercado é dominado por empresas muito pequeninas, altamente subsidiodependentes, e nas quais honestamente não vejo futuro. Eu não quero passar o resto da minha vida profissional a trabalhar num “one-man army”, eternamente a desenvolver soluções que nunca vão vingar porque, convenhamos, há limites para o que uma equipa pequena consegue fazer. É extremamente descolhoante ver o nosso trabalho, que toda a gente diz que é muito bom, ficar perpetuamente atrás por falta de recursos, ou manpower, ou investimento, ou o que lhe quisermos chamar. Dei por mim a tornar-me uma pessoa frustrada, daquelas que vêm as notícias e dizem mal de tudo, mesmo do bom; pequenino e sempre zangado. Decidi procurar outras coisas.

Mudei-me para o UK com contrato assinado para uma multinacional gigantesca, bom salário, boa zona do país e, acima de tudo, projectos incríveis desenvolvidos por pessoas com as quais tenho aprendido muito. Estou novamente no caminho certo.

Eu não me mudei pelo clássico “ganhar mais”. Obviamente que triplicar o salário de um dia para o outro é fixe, obviamente que é fixe comprar carros a pronto (mais sobre isso mais tarde), obviamente que ir às compras e nem olhar para a conta é bom; mas há mais que mova um gajo. O salário é um factor, mas é um factor.


Abraços, e obrigado por virem à minha TED talk.

Edit: desculpem a formatação manhosa no início, esqueci-me do modo markdown.

submitted by /u/UninformedImmigrant
[link] [comments]