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U wot m8? Estórias de um gajo que se mudou para o UK [Capítulo 5.1: Encontrar Trabalho no UK]

Olá amigos!

Desculpem a ausência de uma semana. A vida às vezes dá umas voltas e temos que correr atrás dela. Aproveitei o tempo extra para reformular muito a forma como escrevo e organizo o que escrevo, o que me deve permitir manter melhor a calendarização semanal dos posts. Ao contrário do que tinha planeado, não vou conseguir fazer dois posts por semana sob pena de acabar rapidamente com o material. Vou manter o post semanal à segunda pois isso é o que encaixa melhor no meu ritmo de escrita. Como sempre, obrigado a todos os que me enviaram mensagens a perguntar se já tinha morrido 🙂

Hoje vamos falar de trabalho: como procurar, gerir entrevistas e o tempo intermédio entre aceitar a oferta e começar a trabalhar. Decidi fazer uma pausa no capítulo 4 (sobre o Brexit e o Covid) porque senti que estava a deprimir toda a gente (e a mim) desnecessariamente. Temos tempo para falar nisso e fazer rescaldos mais tarde, mais vale falarmos hoje de coisas úteis! Como os posts estão numerados pelas subsecções dos respectivos capítulos, é sempre fácil encontrar a correspondência.

TL;DR

  • Mandem CVs e não desistam. Enviar mais de 100 é comum.
  • O processo de entrevistas é interessante mas pode ser extenuante. Manter várias “linhas” de entrevistas ao mesmo tempo maximiza as possibilidades, mas tem um preço grande em termos de tempo. Eu pessoalmente acho estimulante, mas é preciso fazer alguma gestão.
  • Pode haver um hiato importante entre aceitar uma oferta e começar a trabalhar, e processos intermédios que podem deitar tudo a perder. Não achem que ter a oferta aceite é o fim da luta!

Encontrar Emprego (no UK)

Isto começou tudo um dia destes quando desatei a enviar CVs. Como já conversámos, eu estava altamente frustrado com as minhas perspectivas em Portugal e por isso estava na hora de mudar. Além disso, havia um pormenor particular da minha situação que me motivou: eu nunca tinha conquistado realmente uma posição. Ao longo dos anos, enquanto estudante e investigador, formei uma rede de contactos e reputação que foram resultando numa série de ofertas pelas quais fui trepando; fui saltando de oportunidade em oportunidade, subindo aos poucos sem nunca ter que activamente conquistar nada. Isto, lá está, é também resultado da área relativamente rarefeita em que me especializei. Então cheguei a uma altura em que me perguntei “será que consigo convencer alguém a dar-me trabalho?”

O meu processo foi simples: procurei em mailing lists e empresas que conhecia da minha área específica, procurei oportunidades abertas, e enviei CVs com cover letters para as que me pareceram relevantes. Obviamente, este é “o processo” e talvez seja um bocadinho essa a mensagem: encontrar trabalho é tanto sorte como esforço, por isso é preciso insistir. Não me restringi (quase) nada nas nacionalidades das oportunidads: enviei CVs para o UK, Holanda, Alemanha, Itália e mais uma série de países. O único país que evitei mais ou menos activamente foram os Estados Unidos, porque conheço algumas pessoas que estão ou estiveram lá, e a experiência que contam não é algo a que eu me queira sujeitar. Ainda me candidatei a oportunidades em Portugal, mas honestamente não queria fazer um “lateral move”; a mudar que fosse para (muito) melhor.

Naturalmente, a definição de “insistir” vai variar muito de caso para caso. Eu enviei algumas dúzias de CVs, talvez uns 50, mas diria que enviar mais de 100 é algo normal nos dias que correm. Procurar oportunidades internacionais abre sempre mais o leque, e torna mais fácil enviar CVs “em barda” para centenas de sítios em relativamente pouco tempo. Por outro lado, vai prejudicar as possibilidades de aceitação, uma vez que qualquer empresa que olhe para o CV com a morada estrangeira sabe que vai ter que lidar com os problemas da relocalização, e nem todas estão para isso.

É importante ter um certo grau de ambição também, e não fazer candidaturas apenas para posições em que preenchemos todos os requisitos. Por estranho que pareça, a empresa onde trabalho hoje foi uma daquelas em que pensei “vou mandar o CV mas não vai dar em nada” por ser ligeiramente ao lado do meu trabalho até então, e no entanto cá estamos. Nenhuma oportunidade se deve deitar fora à partida!

Entrevistas atrás de entrevistas

Na minha área há muita procura, por isso consegui entrevistas em mais ou menos 10 a 20% dos CVs que enviei, o que são números muito bons na minha opinião. No pico, cheguei a ter 5 ou 6 entrevistas por semana, o que à partida parece pouco dada a duração de cada entrevista, mas na realidade é extenuante; são mais de 5h de foco máximo e de “vender o peixe”. Nunca comprometi o trabalho que tinha na altura para poder estar em entrevistas, por isso marquei-as sempre para horários estranhos. Cheguei a ter entrevistas às 7 da manhã e às 18h no mesmo dia, com um dia inteiro de trabalho pelo meio.

Obviamente, eu não conheço o processo de recrutamento de muitas empresas; apenas conheço de algumas, e relativamente restritas à minha área. Um aspecto que me espantou particularmente foi a quantidade de entrevistas que se fazem antes de se chegar a uma oferta. Eu só concorri para posições relativamente sénior, por isso não fui submetido propriamente a testes técnicos (tirando numa ou outra ocasião), mas fogo, foi entrevista atrás de entrevista atrás de entrevista.

A primeira entrevista é sempre mais exploratória, e parece-me ter mais o objectivo de deitar candidatos fora do que propriamente para encontrar bons candidatos. A primeira entrevista normalmente é também a mais fácil, porque os entrevistadores só querem saber se encaixamos mais ou menos na posição, então trata-se de rever o CV, fazer uma passagem pela experiência relevante e discute-se a questão da relocalização. Às vezes parece estranho, mas perguntam a um tipo que explicitamente se candidatou para fora se está disposto a mudar-se para fora. Normalmente esta entrevista é conduzida exclusivamente pela malta do HR.

As formalidades são um aspecto interessante. A única vez em que me chamaram “doutor” foi quando me candidatei a oportunidades em universidades (como post-doc ou lecturer ou o que for). Em Portugal já sabemos que é assim; as pessoas agarram-se aos penachos e interessa-lhes mais isso do que terem algum valor técnico. No estrangeiro não achei que fosse tanto, mas pelo menos na academia parece haver algum toque disso também. Nenhum entrevistador de uma empresa me chamou alguma coisa que não o meu nome, eu retribuí o favor, e toda a gente é feliz. Mais tarde falamos mais nisso.

A segunda entrevista já varia muito de local para local. À partida já envolve alguém técnico da área específica, perguntas mais difíceis, e uma interacção mais tecnicamente interessante. A segunda entrevista é boa para sabermos se, de facto, estamos interessados na posição, porque temos a oportunidade de discutir com as pessoas que trabalham no assunto o que é que fazem. Uma pergunta que gosto muito de fazer é “então e como é o dia típico de uma pessoa nesta posição”, e a resposta é muito reveladora. Se se acanharem, então já sabemos que o dia-a-dia é fodido. Se forem abertos, então ficamos a saber se encaixamos na cultura da empresa, e por aí fora. Por exemplo, essa pergunta fez-me saber que uma empresa (não onde fiquei) praticava algo de interessante: toda a gente estava no escritório das 9 às 12, e o resto do dia faziam o que quisessem. Pré-covid, o conceito era interessante.

Eu honestamente gosto de entrevistas. Fazer entrevistas umas atrás das outras, quando se está na situação confortável de não precisar do trabalho, é muito divertido. Temos a oportunidade de interagir com pessoas interessantes, de nos desafiarmos, de aprendermos a vender o nosso peixe. A entrevista é uma espécie de esgrima “high-stakes” em que temos que saber usar o que nos lembrámos de escrever no CV para defendermos a nossa posição naquela situação. Dá-me mais ou menos aquela sensação de quando defendi qualquer uma das teses; estes gajos estão aqui para me mostrar que eu sou uma merda, e eu vou-lhes cuidadosamente explicar que sou o maior. Não sei, é divertido. Mas lá está, a minha visão é romantizada. Eu aposto que se tivesse que fazer entrevistas no desespero de não ter dinheiro teria outra visão.

Da terceira entrevista para a frente o assunto já se complica e varia radicalmente de local para local. Uma universidade marcou-me uma sessão para um post-doc deles para fazer um teste técnico prático (que foi hilariante por várias razões). A empresa onde estou, lá para a quarta entrevista, pegou em mim e trouxe-me ao UK para falar com os tipos da equipa onde trabalho agora. Outra empresa marcou-me uma sessão com o líder técnico deles para discutir detalhes do design deles.

Quando a relação está séria, ela lá pergunta “tens preservativo?”

Ah, enganei-me. Ao fim de meia dúzia de entrevistas, eles perguntam “então e quanto é que esperas ganhar?” Eu gostava de ter um conselho bom, mas não tenho. Eu sou péssimo a negociar salários e disse sempre o óbvio: “eu não conheço o custo de vida na vossa cidade, portanto tenho que avaliar a oferta e ver em que estado fico”. Eu não sei se é uma boa estratégia ou não, é mesmo só sincera e pelos vistos funciona.

O tempo entre a oferta e o começo

Recebida a oferta, um tipo pensa que está tudo feito, mas é aqui que começa um pesadelo diferente, pelo menos no que toca ao UK. No UK há o conceito de “referencing”, através do qual toda a informação que foi entregue ao potencial empregador é verificada. Isto envolve, por exemplo:

  • Entregar comprovativos de todos os graus académicos em inglês;
  • Telefonar para todas as referências de trabalhos anteriores que entregaste (para surpresa de alguns);
  • Passar uma procuração para emissão de registo criminal para garantir que não somos o violador de Telheiras;

É um processo estranho e altamente frustrante. Normalmente o processo é sub-contratado a empresas de “call center” deslocalizadas que fazem tudo remotamente, com muito pouco brio, à maneira deles e completamente escudados de qualquer responsabilidade. No meu caso em particular o processo demorou excruciantes semanas em que tinha aceite a proposta mas não tinha garantias de, de facto, ter trabalho. Para quem tem uma margem muito curta de algumas semanas para marcar voos, fazer mudanças, encontrar casa etc… é muito complicado.

O meu processo de referencing foi particularmente enervante. Foi realizado por uma empresa francamente incompetente, ao ponto de me parecerem maliciosos, que fizeram praticamente tudo o que podiam fazer mal:

  • Deram-me a preencher documentação errada e nunca admitiram o erro;
  • Violaram os seus próprios prazos;
  • Recusaram-se a alguma vez justificar os atrasos;
  • Encontraram um tuga lá no escritório para me ligar a pedir um documento específico que não tinham pedido antes, como se eu me tivesse atrasado a entregar, o que me pareceu extremamente condescendente;
  • ……. eu sei lá mais o quê.

Durante este período estamos “in limbo”: nem temos trabalho nem não temos. Não podemos aceitar outros compromissos, mas também não está nada garantido. Temos que entregar a carta no sítio onde estamos, mas ainda pode algo correr mal e perdermos a oportunidade. Sei hoje que este processo é muito ilustrativo da atitude Inglesa (como a conheço) para o chamado “paper trail”. Se o assunto for sério, nada é deixado ao acaso e a referenciação é feita com cuidado. Outro exemplo é, naturalmente, o arrendamento; o referencing aqui é também muito duro, ainda que normalmente menos demorado.

Naturalmente, sei de experiências diferentes. Regra geral, a complexidade deste intermédio correlaciona com a dimensão da empresa. Quando entrei para uma empresa pequena, foi questão de ir lá assinar o contrato e começar 2 dias depois.

Conclusão

Ora aí está, os primórdios de como arranjei trabalho por aqui. Tentei fazer deste post algo mais útil e menos de opinião, digam lá como acham que me saí.

Abraços!

submitted by /u/UninformedImmigrant
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