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U wot m8? Estórias de um gajo que se mudou para o UK [Capítulo 5.2: Ética de Trabalho]

Olá amigos!

Hoje vamos falar do que achei interessante na ética de trabalho que encontrei por aqui.

O aviso do costume: a minha perspectiva da ética de trabalho Inglesa é colorida pela relativa peculiaridade da minha experiência: trabalhei a maior parte da minha carreira em equipas muito pequenas e extremamente especializadas, e passei para um “cushy corporate job” numa multinacional gigantesca. Muitas das diferenças que encontro devem-se provavelmente apenas a isto, i.e. se me mudasse para uma multinacional em Portugal notaria algumas das mesmas diferenças. Eu consigo discernir alguns destes casos, mas não prometo que os encontre a todos.

TL;DR

  • O tempo livre e o tempo em família são levados muito a sério;
  • Os títulos saem pela janela;
  • A introspecção e auto-avaliação têm um papel preponderante;
  • Há tempo para iniciativa e inovação.

O tempo livre é sagrado

Em todas as minhas posições em Portugal acabei sempre por configurar o e-mail do trabalho no telemóvel. Dava uma olhada à noite e outra de manhã, mas geralmente evitava andar por lá fora de horas a não ser que houvesse alguma emergência. Obviamente, isso levou-me a ser rotulado de “baldas” que nunca prestava atenção. Na empresa onde trabalho agora é proibido configurar o e-mail da empresa em qualquer dispositivo pessoal. Obviamente, o objectivo da medida é proteger propriedade intelectual e não o tempo livre dos trabalhadores, mas o mero facto de ser regra diz muito acerca da ética de trabalho daqui: enquanto estás a trabalhar, estás a trabalhar; quando sais, saíste.

Isto vai naturalmente variar mais ou menos radicalmente de empresa para empresa, mas no meu caso e nos que me rodeiam (e no local onde vivo em geral) nota-se que o tempo livre e o “family time” são algo que é levado muito muito a sério e geralmente respeitado por todos. As lojas fecham relativamente cedo, geralmente trabalham-se menos horas, e há quase uma espécie de “drive” cultural para se aproveitar bem o tempo livre com hobbies, tempo de família ou actividades ao ar livre. Sim, por estranho que pareça e apesar de o tempo aqui ser uma valente merda 80% do tempo, há sempre pessoas nas ruas e nos jardins a disfrutar deles. Sentar na relva a descansar ou a comer, que em Portugal é geralmente mal visto, aqui é comum.

Em termos de qualidade de vida, esta é uma das mais esmagadoras diferenças que sinto em relação ao meu tempo em Portugal: trabalho no total menos tempo e tenho bastante mais tempo livre. Isto liberta-me tempo para os meus hobbies (viz. escrever estas paredes de texto), para falar com a família e, em geral, para descansar. Ainda no outro dia comentava com a Maria que os meus níveis de stress nunca estiveram tão baixos, apesar de agora estar longe da família. Honestamente não noto diferença na produtividade. Na realidade, na maior parte dos dias até me sinto produtivo porque sei que não tenho que fazer tempo, que o dia tem fim à vista assim que acabar tudo o que preciso de ter feito naquele dia.

Naturalmente isto não é tanto uma característica inglesa como é algo que oiço consistentemente de outras pessoas que trabalham fora de Portugal. Parece que nós temos uma queda qualquer para trabalhar horas a mais com produtividade a menos.

Títulos e formalidades

O primeiro impacto que tive quando aqui cheguei foi o talento cru dos meus colegas. Eu venho, lá está, de ambientes de trabalho pequenos, em que eu sou especialista de alguma coisa e questionado menos vezes do que devia; se não houver ninguém com conhecimentos equiparados, é muito fácil levarmos a nossa avante. Isto levava-me a conseguir fazer aprovar ideias que, bem vistas as coisas, são uma boa merda! A discussão entre colegas é extremamente importante, e era uma das coisas que eu procurava com a mudança. Aqui, os meus colegas são extremamente talentosos e competentes, a um nível que nunca tinha visto antes. Isto eleva o meu próprio nível e leva-me a procurar ser melhor, o que honestamente acho muito saudável.

Isto contrasta com outra diferença muito clara em relação à atitude geral em Portugal, principalmente no que toca à academia, que é a formalidade com que se tratam os colegas. Eu trato os meus colegas pelo nome deles, e eles pelo meu. Uns temos PhDs, outros têm só MScs, outros até ainda estão a estudar. Cada qual vale pelo que consegue fazer e pela sua contribuição, e não pelos penachos que traz do passado. Obviamente que há uma hierarquia, obviamente que eu enquanto sénior tenho responsabilidades diferentes dos estagiários e dos managers e dos execs. Mas há uma atitude de derrubar barreiras, de informalizar a comunicação e de agilizar a colaboração que, honestamente, é refrescante.

Um exemplo prático: na universidade onde estudei havia uma senhora da limpeza que estava sempre a limpar a minha sala quando eu lá chegava de manhã. Eu aparecia e dizia “bom dia dona Gertrudes (nome fictício), como é que isso vai?” e ela invariavelmente respondia com “vai bem, e o senhor doutor?” Ora eu nesta altura ainda não tinha o PhD sequer (e que tivesse) dizia-lhe sempre “não é senhor doutor, é UninformedImmigrant”, e ela recusava-se sempre; parecia que lhe era completamente estrangeiro chamar-me pelo meu nome. Esta atitude infiltra-se por toda a instituição, desde a senhora da limpeza até ao Magnífico Reitor. Há barreiras à comunicação e uma atitude condescendente para com os que compõem os estratos hierárquicos mais abaixo, o que só prejudica o funcionamento da instituição. A hierarquia tem que existir, certo, e cada um tem o seu papel na organização. Mas as camadas têm que conversar entre si e que se entre-influenciar para facilitar os processos naturais da operação.

Isso está completamente patente na empresa onde trabalho. Eu tenho a possibilidade de interagir directamente, informalmente, com pessoas 3, 4 níveis acima de mim na hierarquia e de ver as minhas preocupações, ideias e opiniões levadas a sério. Do mesmo modo, peço feedback aos estagiários acerca de trabalho técnico que até poderia estar fora da esfera deles; mas a opinião ingénua tem muito valor também. Conseguem sinceramente imaginar um professor catedrático a pedir uma opinião honesta a um aluno de licenciatura? A mim custa-me.

O valor da retrospectiva e do processo

Quem se formou em áreas técnicas (engenharias e afins) provavelmente teve uma cadeira de qualidade lá pelo meio e achou aquilo uma valente merda. Source: sou formado numa dessas áreas, tive uma cadeira de qualidade lá pelo meio e achei aquilo uma valente merda.

Quando se chega ao mercado profissional num meio pequeno, na academia ou em start-ups, a qualidade vai janela fora. “Como assim queres passar 2 semanas a afinar isso? Fazes em 2 dias, e se der segue para a próxima.” A qualidade do trabalho fica inerentemente limitada pela extrema escassez de recursos. As coisas aparecem feitas com qualidade “suficiente”, mas nunca se olha para trás, nunca se aprende com os erros e, acima de tudo, nunca há aquele orgulho de “epa esta merda tá incrível”, apenas um conformismo com o “foi o melhor que consegui fazer em 2 dias”.

Obviamente que o tempo é um recurso, mas nem tanto ao mar nem tanto à terra.

Uma ferramenta particularmente interessante é a da retrospectiva. De vez em quando, um tipo pára o que está a fazer, idealmente em momentos de natural cadência no trabalho, olha para trás e pergunta “então esta merda que eu ando aqui a fazer, podia ser melhor?” De notar que a pergunta nunca é “isto está bom?” mas sim “o que é que posso melhorar?” O foco não é em avaliar o que foi feito, mas sim em encontrar aspectos que ainda podem ser melhorados, independentemente do sucesso (ou não) anterior. Ora isto foi uma mudança radical para mim, e noto que só por si tem um impacto muito positivo na qualidade e modo de entrega do trabalho. E é extremamente fácil de aplicar e muitas áreas diferentes!

Trabalhar numa equipa maior significa, naturalmente, uma maior carga administrativa e burocrática no trabalho. É simplesmente o preço que temos que pagar pelo trabalho em equipa; por exemplo, os meus colegas têm que ser capazes de pegar no meu trabalho se eu for de férias, logo tem que existir um registo mais ou menos cuidado do que é que estou a fazer e porquê. Eu já sou organizado por natureza, mantenho logbooks, calendários e notas, mas nunca o tinha feito de uma forma colaborativa, nem tinha compreendido o poder dessas ferramentas quando aplicadas para a coordenação estreita de uma equipa.

O tal “processo”, a metodologia através da qual organizamos o nosso trabalho individual e em equipa, é a ferramenta que engloba tudo isto e muito mais. É um conjunto de regras que vamos afinando ao longo do tempo, que sabemos que têm um preço em termos de tempo, i.e. que demoram tempo todos os dias a seguir, mas que no cômputo geral da operação nos permitem ser mais eficientes. Eu sinto que falta de processo e de formalidade úteis era das maiores falhas no meu trabalho em Portugal. Claro que na Universidade havia processos administrativos para tudo, mas esses são lentos e inúteis, e no trabalho técnico havia processo a menos (às vezes até por contraste).

A iniciativa enquanto motor de mudança

Quando se trabalha numa equipa giganórmica, há muita adaptabilidade à capacidade de entrega de cada um. Os objectivos são estabelecidos a um nível não-individual, e cada indivíduo entrega como consegue. Obviamente que isto tem consequências a nível de reconhecimento, salários e promoções; por outro lado, uma pessoa não é necessariamente mal vista ou até despedida porque tem uma entrega inferior, menos volumosa ou que requer mais atenção. Simplesmente é um indivíduo diferente com uma contribuição diferente. Ressalvamos, obviamente, os casos extremos.

Há muito tempo intersticial. Quanto mais interacção se requer entre indivíduos ou equipas, mais tempo se “perde” a esperar respostas ou desbloqueios. É simplesmente essa a natureza do animal: ninguém responde instantaneamente, e é impossível prever todos os bloqueios a priori.

Há, portanto, um espectro de “empenho” no qual nos podemos voluntariamente colocar. Eu, por exemplo, faço questão de andar na crista: entregar melhor, mais depressa, com mais visibilidade. Quero ter reconhecimento de todas as partes e ser visto como um profissional de topo. Por outro lado, colegas meus claramente não têm essa ambição; são bons profissionais, sólidos no seu trabalho, mas têm filhos e casas para pagar e mulheres para aturar e já não são novos para correr atrás de certas merdas.

Portanto tomar a iniciativa de nos darmos a certos trabalhos é um factor muito mais relevante do que esperava. Como não tenho todo o tempo ocupado a 100%, posso dar-me ao luxo de fazer pesquisa, de chatear colegas com problemas que para mim são novos, de esmiuçar o processo e encontrar novas formas de resolver certos problemas, e por aí fora. Este tipo de atitude é bem-vinda, e tende a levar a mudanças substanciais. Naturalmente, os autores deste tipo de trabalho são recompensados. Isto leva a um sistema interessante de “build your own job” em que sou livre de seguir mini-projectos de paixão pessoal dentro da empresa, tentando moldar as coisas mais à minha imagem e contribuindo com a experiência que trago para melhorar as condições de todos. É uma boa sensação ver que este tipo de coisa é apreciada e vista positivamente.

Conclusão

Até agora dou a experiência por muito bem sucedida, e considero que aprendi muito. Consegui libertar-me de algumas ideias que trazia fixas (demais) e fazer-me valer de alguns valores que já tinha pensado e interiorizado antes de me mudar. Vamos ver se continua a resultar!

Abraços!

submitted by /u/UninformedImmigrant
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