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Vamos lá falar sobre a intolerância da extrema-esquerda

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Vamos lá falar sobre a intolerância da extrema-esquerda

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Tem-se falado muito do radicalismo de André Ventura (bem) e pouco se fala do extremismo do PCP e do Bloco de Esquerda (mal). Para a esquerda em geral, o Chega não pode ser comparado com um partido com quase 100 anos (o PCP) ou com um partido “social-democrata” como o Bloco de Esquerda (BE). Diz a esquerda: os comunistas não tiveram um só “desvio institucional” desde o momento em que o coronel Melo Antunes o integrou no sistema como contrapartida por ter deixado cair o apoio à extrema-esquerda militar no 25 de Novembro de 1975, como os dois principais partidos que estão na origem do Bloco (o PSR e a UDP) fizeram a sua evolução democrática. PCP e BE são partidos constitucionais. O Chega não é.

Este é (mais) um exemplo dos dois pesos e duas medidas que tão bem caracteriza a esquerda portuguesa.

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Nos últimos dias muitos disseram que o PCP e o BE sempre defenderam a Constituição e a Democracia. Em primeiro lugar, o PCP e algumas das forças políticas que estão na origem do Bloco lutaram com todas as suas forças contra a implementação de uma democracia representativa ocidental em Portugal em 1974/75. Por outro lado, votaram sempre contra as grandes revisões constitucionais que marcaram a democracia portuguesa.

A revisão de 1982 impôs a República Portuguesa como um Estado de Direito (um conceito com “conotações burguesas”, segundo o PCP) e subordinou definitivamente o poder militar ao poder civil. A de 1989 extinguiu a irreversibilidade das nacionalizações e criou os fundamentos para a liberalização da economia que tanta riqueza veio a gerar para os portugueses. E a de 1992 acomodou o Tratado de Maastricht — que criou a União Europeia (UE) e o Euro. Contra tudo isto votaram o PCP e a UDP.

A pertença de Portugal à UE e ao Euro é algo que une uma grande maioria da população e está devidamente consagrado na Constituição por representar igualmente uma opção civilizacional do regime. Ainda hoje o PCP é contra a UE e o Euro, enquanto o Bloco defende apenas a saída do Euro. Alguém se lembrou de dizer que o PCP e o BE são contra a Constituição?

A minha maior curiosidade, contudo, é outra: depois de tantos dias com a narrativa do partido anti-constitucional que é o Chega — como contraditório, recomendo a leitura deste artigo do Henrique Monteiro que comparou os estatutos do Chega com os do PCP e do Bloco —, já alguém apresentou alguma queixa no Tribunal Constitucional a solicitar a ilegalização do partido de André Ventura? Alguém quer dar o primeiro passo?

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O PCP sempre se auto-retratou como um partido patriótico, enquanto que o Bloco não vai tão longe mas tem uma narrativa anti-europeia assente nos maus (a Comissão Europeia, o Eurogrupo e outras órgãos da União Europeia) contra os bons (o martirizado povo português). No tempo da troika, bem se viu as vicissitudes desse patriotismo. Enquanto Arménio Carlos, então secretário-geral da CGTP, se referia num discurso em 2013 perante milhares de manifestantes ao “escurinho” — que era o chefe de missão do Fundo Monetário Internacional, o etíope Abebe Selassie — a sempre atenta Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial limitava-se a classificar a evidente expressão racista como “infeliz.”

Depois do céu lhe cair em cima da cabeça, Arménio lá pediu desculpa, mas tardou. Comunista que é comunista nunca admite o erro imediatamente. Aliás, o mais certo é nunca admitir mesmo.

O PCP, refira-se, nunca reconheceu a perseguição, tortura e prisão de milhões de judeus por parte dos estalinistas na União Soviética. Por exemplo, os pais sabiam que não podiam dar nomes judeus aos seus filhos, de forma a que pureza do novo homem comunista não fosse contaminado.

Noutra manifestação de ativistas anti-troika, em novembro de 2012, onde estavam alguns camaradas do Bloco de Esquerda, a criatividade (primária como a do “escurinho”) foi outra. Estava em causa a vista oficial da chanceler Angela Merkel a Lisboa a extrema-esquerda não hesitou em fazer cartazes em que a Merkel aparecia com um bigodinho muito conhecido rasurado à mão: “Hitler go home” (“Hitler vai para casa”). Diz a linguagem do politicamente correto que classificar uma alemã com o estereótipo do nazi é ligeiramente ofensivo — muito mais para uma alemã que cresceu na comunista República Democrática Alemã (RDA).

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Outro caso interessante foi o apoio que o Bloco de Esquerda, nomeadamente Francisco Louçã, sempre deu aos diferentes braços políticos da organização terrorista ETA — um pouco na linha que vários setores da extrema-esquerda seguiram sobre os terroristas nacionais das FP-25.

Apesar de censurar o terrorismo, Francisco Louçã também louvava o Herri Batasuna, omitindo (a sua verdadeira especialização) o lado totalmente xenófobo da ETA. Louçã sabia que a ETA perseguia os maketos — uma expressão basca depreciativa para designar os migrantes de outras regiões espanholas ou até mesmo emigrantes portugueses e de outros países que trabalhavam no País Basco. E qual era o crime dos maketos? Simples: “Não são bascos, porque ou se nasce basco, ou nunca se chega a sê-lo”, era a ideia central da ETA.

Mais: Bloco e o Louçã sempre fizeram questão de ignorar as consequências da aplicação arbitrária por parte de uma organização terrorista como a ETA do chamado imposto revolucionário. Ou seja, os empresários eram obrigados a pagar um valor que os terroristas determinavam sob pena de serem sancionados com a morte. Na prática, era pura extorsão que nunca foi denunciada pelo Bloco e que aterrorizou os pequenos empresários do País Basco anos a fio. Era uma ditadura liderara por terroristas num país democrático chamado Espanha.

Pior: para supostamente ganhar a Opinião Pública basca, a ETA passou a combater o tráfico de droga e a criar zonas livres de droga. E como os combatia? Assassinando os dealers de droga ou até mesmo os clientes, como conta o Diogo Noivo. O filipino Rodrigo Duterte não faria melhor que os terroristas da ETA. Mas enquanto Duterte é sucessivamente denunciado no esquerda.net (o equivalente ao Avante para os bloquistas), nem uma palavra para o mesmo tipo de práticas que os camaradas da ETA tinham.

Ainda hoje, as ideias do Grande Líder Louçã sobre a ETA marcam o pensamento do Bloco de Esquerda. Basta pesquisar no esquerda.net para perceber que o grande foco do Bloco não são os cerca de 900 cidadãos espanhóis e estrangeiros que foram assassinados à bomba ou a tiro pela ETA, mas sim a ação dos GAL — uma organização igualmente terrorista que terá sido fundada pelo Governo de Filipe Gonzalés para perseguir e matar os “soldados” da ETA.

5 Em setembro de 2019, uma resolução do Parlamento Europeu denominada “Importância da memória europeia para o futuro da Europa” colocou em pé de igualdade o comunismo e o nazismo como dois projetos totalitários que provocaram “genocídios e deportações e foram a causa da perda de vidas humanas e liberdade em uma escala até agora nunca vista na história da humanidade”. A resolução teve 535 votos a favor, 66 contra e 52 abstenções. Os eurodeputados do PCP e do Bloco votaram contra.

Perante uma esmagadora maioria dos eurodeputados de 27 países, o PCP viu na resolução a “reabilitação e elogio histórico do fascismo”, recusando-se a censurar os crimes do estalinismo. Um facto que deve surpreender todos aqueles que pensam que só a camarada Odete Santos é que costumava glorificar o Josef Estaline no PCP.

Esta recusa do PCP e do Bloco em constatarem evidências históricas, como já vimos, é muito antiga. As lentes totalitárias e extremamente seletivas com que o PCP e o Bloco olham para o mundo a isso obriga.

Sempre foi assim. E assim continuará a ser.”

submitted by /u/_Goldenhand_
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